Minha andorinha desapareceu
Estou preso na vida, na esquina da Praça João Pessoa, preso no altar de uma mulher com olhos sertanejos, quero fugir, não posso, não devo, preso sem algemas, preso no trânsito, preso na fila para almoçar, preso, você está preso! Estou na cidade sem amar ninguém, ocupando o espaço que minha mãe pariu, na última viagem d
Estou preso na vida, na esquina da Praça João Pessoa, preso no altar de uma mulher com olhos sertanejos, quero fugir, não posso, não devo, preso sem algemas, preso no trânsito, preso na fila para almoçar, preso, você está preso! Estou na cidade sem amar ninguém, ocupando o espaço que minha mãe pariu, na última viagem da Andorinha, que me trouxe para João Pessoa. A Andorinha que eu falo, era uma empresa de ônibus e eu festejava aquela descoberta. Sou braço e abraço, cabelo grisalho na testa e um desejo constante que arranha minha garganta. Preso na cadeira de ferro coberta de fios de plástico, preso no olhar da menino de Salgado de São Félix me mostrando seu coelho, preso na rede do quarto vendo um filme triste. Quero fugir, não consigo. Ávido, intenso, intensa vida ou ansioso por algo inquietante – eu vou, por que não? Cabos e telhas, discos e livros, a vida me prende, me gruda, me pega longe na estrada, estou refletido no fundo da xícara de café, mas nem uísque tomei. Preso na academia com fórmulas físicas sobre braços, peitos e pernas, músculos, e dali não saio, dali ninguém me tira, preso na saudade que me mata, e às vezes sou o menino primata de Maurice Druon.
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