Uma outra Penélope
Ulisses levou vinte anos para voltar a Ítaca. Se tivesse de voltar a João Pessoa, talvez demorasse menos — os deuses modernizaram os transportes, embora continuem especialistas em atrasos.
Ulisses levou vinte anos para voltar a Ítaca. Se tivesse de voltar a João Pessoa, talvez demorasse menos — os deuses modernizaram os transportes, embora continuem especialistas em atrasos. Desembarcaria numa manhã luminosa e, depois de perguntar inutilmente pelo caminho de casa, acabaria na calçada de Tambaú, onde descobriria que o mar continuava azul, mas Penélope já não era a mesma. Ela não estaria diante do tear, desfazendo à noite o que bordara durante o dia. Estaria trabalhando, resolvendo a própria vida, discutindo política, reclamando do preço das coisas e caminhando de Tambaú a Cabo Branco com a desenvoltura de quem aprendeu que esperar marido é uma ocupação sem futuro. Ao lado, um cãozinho puxaria a coleira como se soubesse o destino; um gato, em casa, aguardaria os dois com aquela indiferença aristocrática que nem Homero conseguiu atribuir aos deuses. Ulisses se aproximaria cauteloso. Trazia na bagagem ciclopes, sereias, feiticeiras, monstros marinhos e uma longa intimidade com Poseidon. Penélope ouviria tudo com atenção. Talvez levantasse uma sobrancelha quando ele chegasse à parte em que passou anos retido na ilha de Calipso. “Retido?”, perguntaria.
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