Silêncios que incomodam

Até o fim dos dias, até eu deixar de pensar, não esqueço, e posso até esquecer a chave do carro, não saber onde botei o relógio, ai vejo a foto da minha mãe numa cadeira de ferro coberta por fios de plástico, na parede da nossa casa – periodicamente sentada nos silêncios dela mesma.

MaisPB ·Kubi Pinheiro ·23 de agosto de 2026 · 07h00
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Silêncios que incomodam
Foto: Reprodução / MaisPB

Até o fim dos dias, até eu deixar de pensar, não esqueço, e posso até esquecer a chave do carro, não saber onde botei o relógio, ai vejo a foto da minha mãe numa cadeira de ferro coberta por fios de plástico, na parede da nossa casa – periodicamente sentada nos silêncios dela mesma. A calçada grande, um quadro que eu colava nos meus olhos, era a imagem mais bela, ela, ela, nunca elas por ela. Um dia perguntei ao meu pai se minha mãe quando jovem era bonita – ele disse – “sim, ela sempre foi bonita, eu não me casaria com uma mulher que não fosse bonita…” Minha mãe me dava banho numa bacia de alumínio, uma bacia grande, onde cabia nós dois, e às vezes eu não gostava porque, mesmo sendo um garoto de seis 6 anos, eu já sabia tomar banho sozinho – enfim, eu sou o fim rama. Dizer que a minha mãe, que o meu pai, que eu, que Heras, à deusa grega, esse amor que não sai de mim, mesmo o amor que tenho por minha mulher. Nem tudo que faltou dizer eu disse, mas há um poder transformador. Minha mãe e seus vestidos coloridos, jamais de calça e blusa ou saia, – imagina minha mãe vestida numa calça jeans, nunca vi, nem imagino.

Esta é uma chamada. O texto acima é um trecho da matéria publicada por MaisPB, citado com atribuição. A apuração, o texto completo e as imagens pertencem ao veículo de origem.

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