Quando a rua era nossa
Tenho seis filhos, cinco adultos e uma criança de sete anos, todos nascidos na capital paraibana. Hoje lembrei de quando eram crianças e brincavam soltos nas ruas. Coisa impossível de se pensar hoje em dia. Houve um tempo em João Pessoa em que a rua pertencia às crianças.
Tenho seis filhos, cinco adultos e uma criança de sete anos, todos nascidos na capital paraibana. Hoje lembrei de quando eram crianças e brincavam soltos nas ruas. Coisa impossível de se pensar hoje em dia. Houve um tempo em João Pessoa em que a rua pertencia às crianças. Os carros, poucos e comportados, pareciam saber disso. A calçada era arquibancada, campo de futebol, pista de corrida e ponto de encontro. Bastavam duas pedras para fazer as traves e uma bola — às vezes nem isso. Bola de meia também resolvia. Brincava-se até a mãe aparecer no portão e gritar o nome completo. Nome completo era sinal de que a diplomacia havia terminado. A cidade parecia menor. Ou talvez nós fôssemos pequenos demais para perceber o tamanho dela. Andávamos de bicicleta sem capacete, GPS ou grupo de WhatsApp informando: “Cheguei”. Íamos e voltávamos. E esse simples voltar para casa era tão natural que ninguém chamava de milagre. Hoje, João Pessoa cresceu. E, como todo mundo que cresce depressa, adquiriu alguns maus hábitos. Vieram os prédios, os engarrafamentos, as buzinas impacientes, os semáforos que parecem durar uma infância inteira e uma violência que nos ensinou a desconfiar até da sombra.
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